sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Back to Black,eu estive lá !













Fiquei honrado por ser de uma comunidade






Sai de casa, na Cidade de Deus, às 18h, e parti para a Estação Leopoldina. Ao chegar na portaria, vi vários painéis que mostravam dados geográficos e culturais do continente africano, como idiomas falados em cada país, quantidade de mortos em conflitos, mapa dos países africanos e o nome dos seus colonizadores europeus.

Fiquei honrado por ser de uma comunidade carente (em todos os sentidos) e poder obter aquelas informações que desconhecia e que de fato são preciosas no que diz respeito a minha descendência e origem do meu povo. Sinceramente, sentia felicidade e tristeza. Felicidade por saber o quanto meu continente de origem é rico culturalmente e triste com os dados de mortos em conflitos étnicos. Não me lembro exatamente essas informações, mas elas me surpreenderam.

Mais adiante entramos no saguão principal onde havia uma exposição de fotos e televisões que exibiam documentários com assuntos relacionados ao continente africano. Eu amo fotografia e fui ver os painéis, de aproximadamente dois metros, alinhados e pendurados por cabos de aço formando corredores. Nessas fotografias me deparei com situações de cotidiano e cultura daquele continente. Encontrei fotos de crianças e idosos, homens e mulheres, ricos e pobres, príncipes e plebeus, crenças e religiões; um vasto acervo que me fez perceber o quanto a África influenciou o mundo culturalmente.

Imagens do cotidiano da África
Imagens do cotidiano da África

Dentro de cada fotografia, crescia uma vontade de explorar e conhecer as minhas origens. Após ver os painéis, observei que no teto do espaço estavam vários painéis com informações sobre a economia e a geografia do continente. Uma informação chamou minha atenção: 40% do ouro comercializado no mundo vem de terras africanas. Uma pergunta ficou em minha cabeça: como é possível tanta riqueza gerar a pobreza que vemos no continente?

Também vi que grande parte da transação comercial no continente é feita via África do Sul. Imagine o potencial econômico que existe por lá! Dá para fazer uma comparação com a situação de comunidades carentes, como a minha, que estão atrasadas em relação a outras regiões da cidade, tanto na economia, educação e cultura devido à questão da violência, falta de oportunidades e descaso do governo.

A conferência começou com Angelique Kidjo falando sobre o trabalho que ela desenvolve dando bolsas de estudos para as meninas africanas e acrescentou que o ser humano precisa trabalhar junto, independente da cor, crença e cultura.

Na sequência, Youssou N`Dour lembrou que a música pode ser considerada mais um idioma e que a mesma pode ajudar a desenvolver novas idéias. O cineasta Gavin Hood ressaltou a importância da educação para gerar desenvolvimento social no continente africano.

MV Bill, o mais aplaudido da noite, e morador da minha comunidade, honrou muito bem a oportunidade que teve para falar sobre cultura e desenvolvimento. Começou falando da sua contribuição na área social, através dos seus livros e documentário. Bill também abordou a falta de afrodescendentes na TV brasileira e frisou que a educação no país é um artigo de luxo e que as pessoas precisam aprender a ser protagonistas da própria história.

Após a conferência fui para uma área na plataforma de embarque, que virou uma pista de dança, com dois ambientes: um lounge e black music (anos 60 e 70), quando encontrei um amigo da minha comunidade, o João, integrante de uma companhia de teatro, a Bem Brasil.

Na volta pra casa, senti alegria por ter participado desse evento e dentro do ônibus vendo as ruas escuras, silenciosas e vazias da Cidade de Deus, a tristeza veio à tona pelo fato de muitos estarem dormindo e inconscientes das nossas origens, da nossa cultura e de tantas coisas que possam contribuir para uma mudança social da minha comunidade. Como diria Bob Marley: "Um povo sem conhecimento do seu passado, origem e cultura é como uma árvore sem raízes".





Postagem original:
http://novo.vivafavela.com.br/publique/

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